
Esta eh uma Reportagem de Stickers q saiu na Revista da Folha/ Outubro de 2004:
por Lulie Macedo | fotos João Wainer
Esquina da avenida Paulista: na lixeira, etiquetas coloridas recomendam o que mais falta na cidade -calma. Descendo a rua Augusta, há pombas fluorescentes coladas em postes. Pontos de ônibus na praça da República estão repletos de caveirinhas em série. De tapumes na Vila Madalena, saltam pequenos corações vermelhos de papel.
Não reparou? São Paulo está tomada por uma febre que já contaminou as principais metrópoles do mundo e se alastra pelo Brasil. Os stickers, ilustrações em papel adesivo coladas em paredes, pisos, tetos e placas, fazem parte de uma nova onda batizada como "street art". Ou, como cunharam alguns adeptos, "pós-grafite".
"A street art é uma evolução do grafite. Os artistas de rua foram atrás de novas técnicas e passaram a explorar outras ferramentas, como papel, adesivos em vinil e pôsteres de grandes dimensões", explica o publicitário nova-iorquino Marc Schiller, 40, criador do site especializado Wooster Collective, um conglomerado de artistas de rua de todas as partes do mundo.
Como uma epidemia, a mania navegou pelo mundo a bordo da internet e, por que não, pelo velho e bom correio. Além da produção nativa, artistas de lugares distantes despacham pilhas de seus adesivos para todos os cantos do planeta, e, depois, pela web, podem ver onde seus trabalhos foram colados. "Isso é inspirador e estimula a produzir mais", conta Marc.
Não deve ser por acaso que a proliferação de stickers esteja ocorrendo justamente na época em que o grafite foi totalmente absorvido pelo mercado e que grandes marcas tenham contratado seus autores para grafitar tudo, de fachada de imóveis (a agência do BankBoston na Paulista), a outdoors (Ellus) e até produtos de grife (a embalagem do perfume CK One, de Calvin Klein, lançado no ano passado em série limitada).
O curioso é que, segundo a maioria dos artistas entrevistados, o propósito dos adesivos e da street art é exatamente ser uma resposta à massificação da propaganda, com a qual disputam espaço em meio à poluição visual da cidade.
"Não acho certo que o espaço urbano seja destinado apenas a agências de publicidade, empresas e políticos. A única coisa permitida por lei é anúncio. Está errado, o espaço público é de todos", acredita Stephan Doitschinoff, 27, o Calma.
Artista plástico autodidata, ele começou aos 17 anos pintando pôsteres e fazendo estêncil (máscaras usadas como molde), até chegar à pintura em tela. Com seu traço gráfico e inspiração religiosa, Calma já expôs suas harpias com asas de lágrimas e outras figuras mitológicas em mostras coletivas no circuito tradicional de arte em São Paulo.
"Às vezes, fico dias fazendo um pôster. Gosto do tamanho A0 (84 cm x 1,20 m)", conta. Usando tinta sobre papel, diz que não se incomoda quando um pôster que deu trabalho é danificado no dia seguinte. "Não tem jeito, a natureza da arte de rua é temporária. Quem faz está consciente de que aquilo não vai durar", conta.
Ser tão transitória quanto a vida na cidade é talvez a principal característica da street art. Mas não é a única: o uso da linguagem publicitária -slogans, símbolos e logotipos- é outro traço importante.
Obedeça
Na rua, Calma é da turma de "coladores" que privilegiam poucas e detalhadas colagens -há outra corrente que prefere a quantidade. "Meu lance é massificar. Foi assim que a história começou. Não faz sentido colar um trabalho uma vez só, o efeito não é o mesmo. Respeito quem valoriza poucos adesivos e mais trabalhados, mas prefiro que a pessoa olhe e perceba a presença daquele corpo estranho no mar de informação visual da cidade", diz o santista Alexandre Cruz, 31, codinome Sesper.
O mesmo credo professa o SHN (sigla escolhida apenas pela sonoridade), um coletivo de artistas formado em Americana (130 km de São Paulo). Produzindo adesivos em larga escala por meio de serigrafia, o grupo promove "ações temporárias e invisíveis, usando uma linguagem lúdica e universal para o cenário urbano".
Esse discurso rebuscado também é característico dessa geração de artistas. Na contramão dos pichadores, em sua maioria garotos da periferia que procuram a auto-afirmação imprimindo sua marca a qualquer custo pela cidade, os representantes da street art são garotos e garotas de classe média, geralmente com formação superior em design gráfico, artes plásticas ou comunicação visual.
Aproveitando a formação acadêmica a que tiveram acesso, os autores utilizam os conceitos mercadológicos aprendidos nos livros para sabotar o "sistema" de que fazem parte, como um vírus.
"Os stickers se apropriam da logotipia para atacar a publicidade. O que é um adesivo a não ser uma peça de promoção?", questiona o historiador Eduardo Saretta, 28, que junto com o arquiteto Haroldo Paranhos, 25, e o designer e tatuador Daniel Cucatti, 27, forma o SHN.
Camuflados entre o mar de emblemas que anunciam compre, vendo ou vote, o fato é que os stickers vão aos poucos disputando um lugar ao sol no cenário urbano. Decidir se poluem ainda mais a vista ou se colocam em xeque o direito de ocupar espaço público pode ser apenas uma questão de gosto.
Mas, nesse caso, acredita a antropóloga da PUC Rita Alves, gosto se discute sim -e em público, de preferência. "Deixar sua marca na cidade é um jeito de dizer estou aqui, eu existo, é uma maneira de se dar voz. Se o cartaz do 'compro ouro' pode, por que eles não podem? Esta é uma discussão que
No Brasil, a idéia colou muito além de São Paulo. Na Bahia, a artista plástica Andréa May se envolveu de tal modo com a cultura sticker que montou a Galeria de Adesivos, anexa a uma loja de discos e um bar em Salvador. Ali ela reúne adesivos de artistas de Minas Gerais, Paraná, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Paraíba e Mato Grosso do Sul.
"A arte das ruas pode reconfigurar o cotidiano anestesiado da cidade e interferir de forma positiva e participativa na vida das pessoas", diz Andrea no site da galeria. Também pela internet, ela convocou para o próximo domingo uma mobilização chamada Attack +, que pretende reunir artistas de rua de todo o país para uma colagem simultânea de adesivos.
Em São Paulo, na Vila Madalena, um casal há tempos envolvido com a cultura jovem urbana apostou na qualidade plástica desses artistas e decidiu montar a Choque Cultural, o segundo espaço da cidade dedicado a expor e vender street art -o primeiro foi a Most Urban Store/A




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